sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Velut Luna - Parte I

Desde sempre a Lua exerce um grande fascínio sobre a humanidade. Sobre mim, em particular, tanto mais. E isso vem se acentuando no decorrer deste ano regido por ela.

Entre todos os povos, religiosa ou apenas culturalmente, há a associação de uma série de conceitos com a Lua e a crença de que ela possa influenciar as coisas sobre a Terra. O binário Sol/Lua é análogo a todos os conceitos de opostos complementares que conhecemos, inclusive e especialmente à ideia de gênero.


Enquanto o Sol, governante da luminosidade do dia, verdadeira fonte da energia e calor que sustenta a vida, é associado a valores como: positivo, masculino, ativo, razão, lógica, força, vigor, objetividade, consciência, lucidez, estabilidade, etc.

À Lua, senhora da noite que nos ilude com cálidos raios prateados que não são seus, se faz toda a atribuição oposta: negativo, feminino, passivo, emoção, intuição, fragilidade, fraqueza, subjetividade, inconsciência, devaneio, variabilidade, etc.

Por isso, é a Lua/Noite que se costuma relacionar tudo aquilo que não é regrado, ordinário. Como certos tipos de estado/temperamento: a Lua dos apaixonados, românticos, sensíveis, artistas, boêmios, loucos, desajustados, etc. Além, claro, das fantásticas criaturas das trevas: vampiros, lobisomens, fantasmas e assemelhados.

Na própria língua se percebe isso claramente quando não raro ouvimos algumas expressões comuns:

“Fulano é de Lua” – para expressar que é uma pessoa de humor imprevisível.

“Fulano vive no mundo da Lua” – pra indicar que a pessoa é sonhadora, desligada, fora da realidade.

“Fulano nasceu com a bunda virada pra Lua” – para dizer que alguém tem muita sorte.

“Lunático” – sinônimo para louco, insano.

Talvez a mais intrínseca de todas seja a ideia de inconstância/variação, motivada especialmente pela Lua aparecer em constante mudança no nosso céu. São as famosas “fases”.


Inerente a essa alternância das fases, existe a crença de que a influência da Lua, dependendo da fase em que encontra, possa ser favorável ou não aquilo que se vá fazer.
Todo mundo conhece a história aquela que na Nova as coisas se renovam, na Crescente crescem, na Cheia ganham o máximo de amplitude e na Minguante diminuem. Deste modo, diz-se que a Lua atua sobre a geração, formação e o desenvolvimento de todas as coisas na Terra. Por isso é comum se observar as fases antes de realizar plantios, podas e colheitas das plantas. De cortar cabelos e unhas. Diz-se também que a troca da Lua precipita o nascimento em gestações avançadas.

Confesso que fiquei bastante surpreso, ou talvez decepcionado, ao descobrir que nenhuma dessas crenças populares em torno da Lua tem validação científica. Nenhuma!

Mas o número de partos não aumenta na Lua Cheia? Não. Pelo menos nada que pudesse se constatar estatisticamente.

Mas e as plantas não nascem e dão frutos melhores se plantarmos na Lua certa? Pois é, não. Pesquisadores vêm testando Luas plantios em Luas "boas" e "ruins" e não deu diferença nos resultados.

E os lobos que uivam pra Lua cheia? Pois é, não é pra Lua que eles uivam. É para chamar outros lobos pra caça, para demarcar território caso estejam sendo invadidos, pra se comunicar. E não é na Lua cheia, é em todas. A cheia só é mais badalada porque a luminosidade dela favorece a caçada noturna, só isso.

Decepcionante, não? É a Lua novamente nos lançando ilusões!

A única exceção são as marés, só. E ainda assim tem muito mais a ver com o aumento da força gravitacional do Sol do que com a Lua em si.

Mas aí eu lembrei que tomar banho de sal grosso ou plantar arruda na frente de casa também não possui nenhuma validade científica e deixei isso pra lá.

O fato é que sempre percebi uma mudança drástica e involuntária no meu humor em um determinado período do mês. Costumava brincar que se eu fosse mulher esse seria meu período menstrual!

Até que há alguns dias atrás, casualmente ajudando uma amiga a programar uma espécie de encantamento de acordo com a Lua, percebi que esses altos e baixos coincidiam com as mudanças de fase lunar.

Isso automaticamente me lembrou de uma música lindíssima, entitulada "Hijo de la Luna", originalmente da banda espanhola Mecano, que ganhou numerosas versões e eu acabei conhecendo na voz de Sarah Brightman.



[Letra e tradução disponíveis aqui.]

A música conta a história de uma cigana que pede à Lua por um marido. A Lua por sua vez propõe lhe conceder o desejo, desde que a cigana lhe entregue o primeiro filho do casal. A cigana questiona no refrão o que a Lua de Prata, que quer ser mãe mas não pode, fará com uma criança de pele? A Lua diz que se a mulher está disposta a trocar o filho por um marido, é porque não o amará realmente.

A cigana se casa com seu sonhado cigano e quando a criança nasce, ao invés de morena como os pais, é branca de olhos cinzentos. O cigano enfurecido acreditando ter sido traído mata a mulher a abandona a criança no alto da montanha.

A canção finaliza dizendo que quando a Lua está cheia é porque a criança está bem. E que quando chora, a Lua então míngua para lhe fazer um berço.

“Nossa, que lindo! Sou como o tal hijo de la luna!” – poderia pensar eu. Mas não, na verdade sou apenas desequilibrado.

Ignorando minha natural tendência pagã e todos os aspectos astrológicos formados pela Lua no meu mapa, posso me ater somente ao signo e isso me levará ao arcano XVIII – A Lua do tarô.


[Arcano XVIII - A Lua - Cosmic Tarot]

Que era onde eu pretendia chegar desde o princípio, mas a postagem acabou ficando muito extensa, então deixo para a próxima parte.




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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mirror, mirror... on the wall

[Trailer - Snow White and the Huntsman - 2012]
ATENÇÃO: essa postagem pode conter spoilers!

Foram somente dois fatores que me fizeram querer assistir este filme desde o primeiro anúncio:
1- Ser dos mesmos produtores do Alice in Wonderland (Tim Burton, 2010).
2- Ter uma Rainha Má linda e glamourosa como Charlize Theron.

Não há de se esperar muito de filmes deste tipo. No entanto, essas releituras de contos de fada sempre trazem novos sentidos a elementos da história original e acabam por refletir o que a sociedade está vivendo naquele momento. Foram detalhes deste tipo que mais me chamaram atenção ao assistir o filme.

Antes disso, caberia uma pausa para dizer que a produção realmente faz jus ao esperado, a fotografia, as locações, os efeitos especiais são maravilhosos!

E pra aqueles que, assim como eu, sempre preferem as vilãs, Charlize não decepciona em nada. Na minha opinião o filme poderia muito bem ter se chamado “Ravena - The Evil Queen”.

Mas enfim, o que eu achei interessantíssimo foi o filme ter se focado em um embate que acontece literalmente “entre mulheres”. Valendo-se de pontos muito inerentes ao feminino para desenvolver seu enredo e deixando o papel das figuras masculinas correrem em segundo plano.

Apesar de preservar sua característica geral, parece que a sociedade não entende mais as figuras da Princesa Boazinha e da Rainha Má segundo os velhos moldes, mesmo que seja em um conto desse tipo.


Desta vez, temos uma Rainha/Bruxa Má cuja maldade está fundamentada no desejo de vingança contra o mal causado à sua família/povo pela dominação violenta de um rei velho.
Do outro lado temos uma Princesa, que apesar de dócil, não atende mais ao perfil frágil e romântico dos antigos contos. Ela é uma sobrevivente, que luta corajosamente por seus ideais e culmina a trama reconquistando seu reino perdido vestindo armadura, empunhado espada e escudo e convocando seu povo à guerra.


A ferida de valores implantados pelo patriarcado, como a objetificação da mulher e a rivalidade entre elas, fica explícita o tempo todo na trama. Desde o momento em que, no leito de núpcias, a rainha diz ao rei algo como que as mulheres só têm valor enquanto jovens e bonitas, pois quando ficam velhas são descartadas e entregues aos cães, antes de assassiná-lo. Até o ponto fatídico em que o espelho diz a rainha que seu poder está ameaçado pela beleza de alguém que “hoje torna-se mulher”.

Tudo gira em torno da obsessão por beleza e juventude, representados como que sendo a fonte do “poder” que a rainha tanto persegue. E naquela cena clássica da maçã envenenada ela não usa o disfarce da velhinha. Ao invés disso, transforma-se no próprio “príncipe encantado”, para depois de ludibriar a princesa que sofre as dores do veneno, questionar-lhe se agora percebe como o amor é uma ilusão perigosa. E não, também não é o beijo do príncipe que desfaz o encanto. Pois o filme deixa reis e príncipes relegados a um plano coadjuvante.

No “final feliz” mais um detalhe me surpreendeu: nada de casais apaixonados que “viveram felizes para sempre”. A princesa, que volta da morte para reconquistar seu trono e seu reino, aparece sendo coroada para reinar sozinha. Como soberana única, sem um rei, sem um par, atentando contra o velho dogma da necessidade de um homem para ampará-la.




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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dona Geni, de la Mancha

O horário atípico me deu a oportunidade de encontrar um assento vago no trem de volta. Coisa rara ultimamente.
Apesar disso, o cenário é o mesmo de costume: um grupo de pessoas envolvidas por pensamentos que navegam nas telas espelhadas dos seus celulares ou são orquestrados pelos seus fones de ouvido.

Agrupadas num mesmo espaço/tempo, vivem cada qual a sua realidade particular.
Especialmente por ela, aquela senhora sentada no lado oposto do vagão, conversando com o encosto do banco da frente.

Aparentava ter os seus mais de sessenta anos. Vestia-se sobriamente e tinha cabelos arrumados com o volume típico dos penteados das mulheres da sua geração, tingidos de um castanho profundo que fazia contraste intenso à pele clara.

Chamava-se Geni, mas eu ainda não sabia disso.

Em um tempo incerto, no seu universo particular ela travava uma discussão ferrenha com alguém. Alguém que a ofendeu em um passado recente e por um motivo qualquer ela não revidou na hora, e agora remoia as coisas que deveria ter respondido.
Ou talvez alguém que fosse encontrar para esclarecer uma situação, num futuro próximo, quando chegasse ao seu destino.
Não importava, Geni prosseguia vivenciando intensamente o seu monólogo.

Inquieta, ajeitava-se constantemente no banco, inclinava-se pra frente, agressiva, como se faz comumente para dar ênfase ao que estamos dizendo.
Logo depois recostava-se novamente no banco, puxando a gola do casaco de lã para fechá-lo sobre o peito e acomodar a bolsa no colo para apoiar as mãos.

Geni falava de si com firmeza, colocando a mão sobre o peito, logo acima de onde o tempo e o amamentar dos filhos haviam nivelado seus seios.
Permanecia alguns segundos desse modo, estava ouvindo o que o “outro” dizia. E se não lhe agradava, rebatia. Desfazendo o arranjo num novo gesto enfático.

Por vezes severa, por vezes irônica, as muitas nuances do embate iam emergindo no seu semblante.
Olhava pra fora e balançava a cabeça. Inconformada, dizia a si mesma que isso não poderia ficar assim, de jeito nenhum!

Fez o sinal da cruz quando passamos por uma igreja. Aquilo tudo podia na verdade ser uma oração. Deus era testemunha e estava do seu lado. Geni rogava que lhe desse força, porque ela foi oprimida.
Geni argumentava, gesticulava dando forma ao que estava dizendo e por fim apontava o dedo, na face imaginária do seu interlocutor.

Geni sabia se defender. Quem sabe em um outro tempo, pudesse ter sido uma advogada de renome ou uma implacável promotora de justiça.
Se a vida tivesse sido diferente, mas não foi. Com certeza havia sido muito bonita quando jovem, seus traços do rosto afinados e maçãs elevadas ainda preservavam a sombra dessa beleza que cedeu espaço às marcas de sofrimento que tempo deixou.

Mas a maturidade também lhe trouxe dignidade. Não, ela não se calaria mais! Ali, no imenso espaço existente naquele meio banco que ela ocupava no trem, Geni bradaria como uma leoa!
Porém num tom tão baixo, tão para si mesma, que por nada atrapalharia o raciocínio exigido pelas palavras cruzadas que o senhor ao seu lado preenchia.

Um som inconveniente surgiu para promover alguma trégua a sua batalha interna.
Abriu um tanto atrapalhada o zíper da grande bolsa de couro preto e remexeu até encontrar o aparelho celular.
Ao atender impaciente, identificou-se. Foi quando descobri seu nome.
Falou muito rapidamente sem dar nenhuma brecha pra conversa se desenvolver.
E logo bateu o flip do aparelho e largou de volta na bolsa, demonstrando não dar a menor importância para o que foi dito.

Geni estava injuriada, era fato. Estava escrito na sua expressão.
Como se a pessoa do outro lado tivesse ousado lhe dizer:
“Geni, são apenas moinhos de vento.”
E ela irredutível afirmasse: “Não! São gigantes!” - encerrando a ligação.

Mas o que afinal teria acontecido? Com quem ela estava discutindo tão nervosa? Que tipo de coisa poderia estar a incomodando tanto?

Jamais saberei...

Numa estação qualquer Geni cruzou a porta do vagão e se foi, me privando da verdade.
Fui bruscamente abandonando às minhas próprias projeções sobre ela.

Afinal, cada um de nós vive, sim, a realidade da sua própria percepção.




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sexta-feira, 11 de maio de 2012

So bored...

Conte-me algo que eu não saiba...
Por favor, mostre-me algo novo!
Doe-me alguma intensidade
Me faça perder o ar
Ter um frio no estômago
Um arrepio na alma
Uma surpresa, uma aventura, uma paixão, uma boa causa
Um bom “por que”
Me impressione!
Com algo que não faça ser só mais um dia após o outro
Não se extingue em fogo fátuo
Um bom contraste
Um imprinting
Uma borboleta que surge, ao acaso, e faz o gato saltar do seu sono na grama pra querer persegui-la nas alturas...

Pelos Deuses, estou tão entediado!




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domingo, 18 de março de 2012

A Papisa encimava o baralho...

A velha caixa rangeu sua tampa ao ser aberta. Mesmo depois de tanto tempo, o perfume das rosas ainda exalava da madeira escura.
Retirou o maço de cartas com cuidado. Na tinta gasta do verso, estava impressa a história de todas as mãos que já as haviam tocado.
A Papisa encimava o baralho. Como sempre, do jeito que sua avó havia lhe ensinado.

Lembrou-se do modo como ela embaralhava as cartas com firmeza. E das vezes em que fingia brincar, só para poder ficar observando ela sentada, na ponta da grande mesa da cozinha, deitando as cartas sobre a toalha branca.
Das expressões atentas, das amigas que vinham lhe consultar, enquanto ela falava com feição séria, apontando alguma lâmina.
Da sua voz carinhosa lhe explicando que as figuras estavam desbotadas e as bordas gastas porque era muito velho, tinha sido de alguém da família há muitos anos atrás e veio de geração em geração até finalmente ser dela.
Da vontade que tinha de mexer naquelas cartas grandes, quando por vezes sua avó a deixava ficar no colo, enquanto abria o tarô para alguém.

De repente, viu-se novamente menina, em pé ao lado da cama. Com os vívidos olhos verdes da avó lhe fitando, perdidos em meio ao rosto abatido, enquanto com algum esforço ela abria a gaveta do criado mudo e pegava a caixa do baralho.

“Eu recebi da minha mãe, que recebeu da mãe dela, que tinha recebido da avó dela, que também tinha recebido de alguém da família antes. Agora é seu. Ficará toda a vida contigo e um dia você também entregará para alguém.”

Estava atônita, não sabia o que fazer ou o que dizer. Suas mãos tremiam ao estendê-las para receber o presente.

“Vai guardar ele contigo sempre, não importa onde você for, levará ele contigo. Não deixará ninguém mais usar. Por nada vai se desfazer dele. Usará sempre com respeito. E um dia vai passar pra uma herdeira tua, como eu estou fazendo agora. Me prometa!”

“Eu prometo.”

Colocou a caixa sobre suas mãos trêmulas e lhe abençoou, tocando sua testa.

“Sim, eu prometo...” – balbuciou sem perceber, com o olhar perdido sobre as lâminas que segurava.

“Me fala! Você está vendo alguma coisa?” – disse a aquela voz aguda que lhe trouxe de volta ao presente.

[Excerto de um improvável futuro romance]




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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Saturno, em retorno...


[A Roda da Fortuna - Jean Delville, 1940]

Saturno, seu velho
cretino e sábio
Vens me ceifar os sonhos
Grãos que escoam
das Areias do Tempo
no teu andar arrastado

Não me deixa viver as quimeras
Alheias a tua presença
Que insiste
Nas rugas que surgem no espelho
Ou na dor que brota nos ossos
Lembrando sempre
O escravo que sou
deste teu caminhar

Saturno, soturno...
O que afinal espreita esse teu novo retorno?

Ao fim e ao cabo
seremos todos tragados
pela ambição do teu poder...
Pai terrível
Devorador de seus filhos

Quiçá haja meios
No espaço entre os teus passos
de haver grandes feitos
Aquém dessa limitação
Para que não reste apenas
O fantasma de um tempo em vão.




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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Les Reines Noires de Agache

Foi nos créditos da impactante "La roue de la Fortune" que vi pela primeira vez esse nome: Agache, há alguns anos atrás.
Vi-o novamente há poucos dias, dessa vez com a sua "L'Épée", então fui buscar conhecer suas outras obras e me apaixonei!

Como leigo absoluto que sou, meu contato com as artes é bastante instintivo.
Eu olho. Gosto ou não gosto. Me toca ou não. Me diz alguma coisa, ou não me diz nada.
E nesse caso, as pinceladas funestas de Agache me dizem, sim, e muito!

Não me contive em fazer uma analogia, de toda inútil, porém irresistível, com as Rainhas do Tarô. Obviamente, isso não representa nada além daquelas infames "comparações de figurinhas"...

Então, vamos às "Rainhas Negras" de Agache.

OUROS


[La Diseuse de Bonne Aventure, 1895] [Rainha de Ouros - Thoth Tarot - Crowley/Harris]

A mulher portando o globo, nesse ambiente telúrico de verde/dourado/negro/marrom do quadro me lembrou de imediato a carta do Thoth, onde a Rainha aparece "entronizada sobre a vida da vegetação", e o disco tradicional ganha a tridimensionalidade de um globo/esfera.


[Rainha de Ouros - Antichi Tarocchi Liguri-Piemontesi][Fantaisie, 1907]. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .[Cover / Dodal / Ottone]

Em alguns baralhos clássicos, além do disco/globo, ela também porta um cetro/bastão. Isso, acrescido da similaridade da posição e do traje me fez ver algo em comum entre as cartas e essa pintura dele.

Ainda nos domínios da Dama de Ouros, caberia uma outra obra, intitulada "Vanité".


COPAS



[Enigme, 1888]. . . . . . . . . . . . . . . .[Rainha de Copas - Thoth Tarot - Crowley/Harris]


Sim, as cores são destoantes. Mas a composição é muito semelhante, a pose delas é idêntica e os elementos encontram paralelos em ambas as imagens. Até mesmo a ave que aparece aos pés da rainha na carta, tem seu correspondente no emblema de Ísis/Mut estampado no alto da parede, no fundo do quadro.

Curiosamente, essa obra é chamada "Enigme", e me remete muito a forma indecifrável com a qual foi representada essa Rainha no Thoth. Nas palavras do próprio Crowley sobre ela:

"A imagem dela é de extrema pureza e beleza, com sutileza infinita; ver sua Verdade é dificilmente possível pois ela reflete a natureza do observador com grande perfeição."
(O Livro de Thoth, p. 153)

Quando esta obra foi exposta, em 1888, era acompanhada por um excerto de poema de Edmond Haraucourt, dizendo:

"Sacerdotisa do enigma e filha do mistério / Eu guardo sob o céu os segredos do que ele quer fazer / E eu sei do futuro como um fato consumado. / Mas eu fechei a minha alma austera / No orgulho do silêncio e da paz do esquecimento." (tradução livre)

[Étude, 1910]. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .[Rainha de Copas - Medieval Scapini]


Neste outro caso, a comparação se deve apenas pelo semblante plácido, cingido por uma coroa e um véu esvoaçante e, principalmente, pelo gesto da mão sobre o peito, referência ao coração (Copas), feita por ambas.
Eu não consegui decifrar o que ela segura na outra mão, tampouco obtive essa informação pesquisando acerca. Se alguém conseguir entender, por favor me avise!


PAUS



[Magicienne, 1897]. . . . . . . . . . . . . . . .[Rainha de Paus - Rider-Waite]


A referência do bastão é bastante óbvia. Alguns outros elementos também coincidem. Mas numa impressão geral, a mim pelo menos, a sensação evocada por ambas as imagens é muito parecida. Especialmente pelas cores vivazes, ígneas que Agache utilizou aqui.
Além disso, a pintura intitula-se "Magicienne", o que me remete muito ao caráter de magia/bruxaria atribuído a essa Rainha.



[Les Couronnes, 1909]. . . . . . . . . . . .[Rainha de Paus - Ancient Tarot de Marseille]

Já aqui, a exuberante cabeleira solta e a coroa de louros são os elementos diretos comuns em ambas as imagens. De fato, não consta nenhum bastão na pintura. Há sim, a sugestão de fogo dada pela fumaça saindo do queimador à esquerda da composição.


ESPADAS



[L'Épée, 1896]


Esta dispensa qualquer demonstração. A obra fala por si só. Uma mulher de postura forte, semblante firme, descansa sobre seu colo uma espada. Ao fundo lê-se a inscrição latina "PRO IVSTITIA TANTVM" que significa que a espada (violência) deve ser utilizada apenas por Justiça.


O ARTISTA



Alfred-Pierre Joseph Agache(Lille, 29 de agosto de 1843 — Lille, 15 de setembro de 1915) foi um pintor acadêmico francês. Infelizmente pouco se sabe a respeito dele. Iniciou sua carreira como músico, mas em uma viagem à Itália conheceu grandes clássicos e acabou se especializando em retratos e em pinturas alegóricas de grande escala. Exibia frequentemente seu trabalho em Paris. Foi membro da Sociedade de Artistas Franceses e, em 1885, ganhou uma medalha de terceira classe por seu trabalho. Teria cultivado amizade com o artista americano James Abbott McNeill Whistler e com o escritor francês Auguste Angellier; este último dedicou um livro a Agache por volta de 1893. Duas de suas peças, "Vanité" e "L'Annonciation", foram apresentadas na Exposição Universal de Chicago. Em 1895, Agache se tornou oficial da Legião de Honra.

Para conhecer algumas de suas obras clique aqui.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um último rito

Não era, absolutamente, nesse contexto que eu imaginava reativar esse blog. Que nem mesmo está totalmente pronto ainda. Mas se há uma coisa que este ano me ensinou, é que não se pode perder tempo. Pra nada. Não há o que se esperar, a vida é urgente e não sabemos o que nos aguarda em seguida, para nos darmos ao luxo da espera.

Adash pretendia passar esse réveillon na praia, já que há anos não íamos ao mar. Então, recusei os convites de amigos e parentes para a virada, fui eu ao mar, realizar um último rito por sua passagem. Fazer a oferenda que ele pretendia fazer à sua mãe Yemanjá.



Chegando lá, encontrei um mar revolto, do jeito que ele mais gostava e sempre aparecia em seus sonhos. Ao entrar no mar, achei lindo ver um cenário de peixes saltitando contra o refluxo a minha volta e gaivotas dando rasantes sobre as ondas sob a luz da lua. Me lembrou muito este quadro, que é lindíssimo e infelizmente não sei o nome do artista.



No barquinho de oferenda, junto às rosas, entreguei ao mar a Princesa de Copas que ele havia desenhado (na oficina da Sarah Helena, na Mystic Fair) e a mesma carta do seu Thoth. Assim como seu perfume e mais algumas coisas dele.


[Princesa de Copas - Thoth Tarot - Crowley-Harris]

Adash amava essa princesa, via nela a expressão da plenitude, da liberdade e fluidez emocional. Dizia ser seu “arquétipo oculto” da corte.

Uma das suas observações sobre a carta do Thoth foi:
“É interessante a forma como a Frieda representou ela caminhando firme sobre as ondas.”



Deste modo, entreguei o filho de volta aos cuidados da mãe. Do ventre da Mãe-Mar ele veio, a este retorna, e leva consigo uma parte de mim.

Nunca simpatizei muito com anos de Oxum, minha mãe, pois me são sempre anos de grande impacto. Perdi minha mãe em um ano assim (2000) e agora o ciclo se repetiu.
Lavei meu pranto nas águas do mar noturno, no meu próprio rito de passagem. Sei que a falta nunca irá passar, a saudade ainda é indizível, mas todo ciclo precisa ter seu fim. Agradeço a sorte de ter tido esses dois capricornianos a meu lado nesses 28 anos de vida.


[Arcano XVIII - A Lua - Ancient Egyptian Tarot - Clive Barrett]

Agora é hora de encerrar o luto e seguir em frente, sozinho. Sim, porque estar sem ele(s), mesmo amando e contando com meus preciosos amigos, é estar sozinho. Por isso, decidi virar o ano assim, sozinho, para vivenciar a minha Lua. Na escuridão da noite, sem estar hospedado em lugar algum, sem nenhuma garantia, contando apenas com o próprio instinto, de fronte às mais inquietantes emoções. Vislumbrando o vai e vem do mar e refletindo, à espera da chegada do Sol.
E quando o primeiro sol de 2012 surgiu, me encontrou a beira-mar, aliviado e reconstituído.
Cantando: “Mãe d’Água, Rainha das Ondas, Sereia do Mar...”



Tenho muito boas impressões sobre este novo ano. Percebo um link muito forte entre Lua-Fortuna-Mar, que publicarei num outro post.
Feliz e abençoado 2012 para nós!




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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Status Serpentis


É nestas horas, em que a sensibilidade diante da estupidez que assisto, me faz inchar as glândulas de veneno, que eu mordo de leve minha mão e vou tratar das minhas escamas...

Afinal, é característico das serpentes ficarem com o sangue quente enquanto digerem suas presas, e retornarem à frieza costumeira depois de terem lhe vomitado os ossos.






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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Me silencio...


Por vezes eu tenho muita coisa que poderia, ou quem sabe até deveria, ser dita a algumas pessoas.

Mas logo lembro daquela máxima pitagórica:

“Se o que tens a dizer não é mais belo que o silêncio, então cala-te.”

E me calo.





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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Just smile


Quando alguém me diz:

"Não imaginava isso de você!"

Eu simplesmente sorrio...

É um deleite saber que não caibo na concepção limitada das pessoas.

That´s all.





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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Feliz Beltane!

Meninas e meninos queridos, bruxos ou não, Feliz Beltane!
Que a Deusa, nossa Mãe, dê-nos as infindáveis bênçãos do Seu Amor!
E que nos fogos dessa noite sagrada, queime tudo aquilo que outrora pode nos impedir de seguir o caminho da Realização!
Regozijai-vos, é Beltane!





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domingo, 30 de outubro de 2011

Breve arrependimento


Arrependimento... estamos enfim sendo apresentados!
Creio estar, pela primeira vez, te conhecendo realmente.
Teu semblante não é tão horrível quanto eu esperava.
Mas tua presença é sim, tão mais sombria do que ouvi dizerem.
Viverei contigo este dia, somente.
Pois à noite, te lançarei às chamas e te afogarei no vinho do Beltane.
Carpe Diem...




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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ma´at


[Arcano VIII - A Justiça - The Mary-el Tarot - Marie White]

Sou grato à Ma'at, que me abençoa constantemente. Louvores eternos a ti, Senhora! Pois a Verdade sempre, SEMPRE cai no meu colo!

"Vim e aproximei-me para ver a tua beleza. Minhas mãos estão erguidas em adoração ao teu nome: Justiça e Verdade!"




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